Concedei-nos o convívio dos eleitos: o céu é nossa meta!

“Vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro; trajavam vestes brancas e traziam palmas na mão” (Ap 7,9).

Iniciamos o mês de novembro vivenciando uma celebração muito especial na liturgia da Igreja: a solenidade de Todos os Santos. A Igreja militante, comunidade dos batizados que caminha nas estradas do mundo rumo ao céu, celebra os irmãos e irmãs que nos precederam na fé em Cristo. A Igreja gloriosa nos acompanha do céu com suas preces fraternas de intercessão e nos inspira, ao longo da história, com seus exemplos e testemunhos. Neste dia, a Mãe Igreja faz um apelo a todos nós, seus filhos: “O apelo à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade se dirige a todos os fiéis cristãos […] A perfeição cristã só tem um limite: ser ilimitada” (CIC, 2028).

A liturgia, com toda a sua riqueza, quer que não esqueçamos a vocação de cada um de nós, que somos batizados: a vocação à santidade! O prefácio desta solene liturgia nos situa diante do mistério celebrado, convidando-nos a louvar o Senhor: “Vós nos concedeis hoje festejar vossa cidade, a Jerusalém do alto, nossa mãe, onde a assembleia de nossos irmãos e irmãs canta eternamente o vosso louvor. Para esta cidade, peregrinos e guiados pela fé, nos apressamos jubilosos, compartilhando a alegria dos membros mais ilustres da Igreja, que nos concedeis como exemplo e auxílio para nossa fragilidade.”

Não celebramos, nesta solenidade, apenas os santos inscritos no calendário litúrgico da Igreja, aqueles que já foram canonizados ou beatificados, mas todos aqueles que já gozam das eternas alegrias, que já contemplam a eterna beatitude. Sim! O seu José, da oficina aqui do bairro; a dona Teresa, da padaria ali da esquina; o seu Luís, do grupo do Terço dos Homens lá da paróquia; a Maria, que era coordenadora do Apostolado da Oração da comunidade, que já partiram deste mundo e lutaram para permanecer sempre fiéis à vontade de Deus em suas famílias, trabalhos e desafios: estes também são celebrados neste dia!

Deus é Santo e fonte de toda santidade: dessa fonte bendita e transbordante, também nós somos convidados a buscar e saciar-nos. No Antigo Testamento, a Sagrada Escritura já nos mostra Deus dirigindo-se ao povo escolhido por meio de Moisés: “Dirás a toda a assembleia de Israel: Sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo” (Lv 19,2). É vontade de Deus que sejamos santos como Ele mesmo é. No Evangelho, Jesus dirá algo semelhante: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Alguém poderia pensar, por isso, que a santidade é uma radicalidade inacessível ou um ideal extraordinário reservado a poucos. Mas não! A santidade, ao contrário, é acessível a todos, pois não é privilégio de alguns, mas vocação de todo batizado, seguidor de Cristo. Santidade é vocação, porque Deus nos chama; santidade é dom, porque Deus nos oferece; santidade é busca do céu, que deve ser nossa meta mais desejada!

O que fazer para ser santo? A liturgia da solenidade de Todos os Santos nos oferece a resposta com o Evangelho das Bem-aventuranças (Mt 5,1-12a). A santidade consiste em viver como bem-aventurado. O termo “bem-aventurado” expressa a condição daquele que encontra em Deus a verdadeira felicidade, uma felicidade que não se identifica com aquilo que o mundo apresenta como realização, mas que encontra sua plenitude em Deus.

O santo, portanto, é pobre em espírito, porque dele é o Reino dos Céus; é aflito, porque será consolado; é manso, porque possuirá a terra; tem fome e sede de justiça, porque será saciado; é misericordioso, porque alcançará misericórdia; é puro de coração, porque verá a Deus; promove a paz, porque será chamado filho de Deus; e é perseguido por causa da justiça, porque dele é o Reino dos Céus. Por fim, são bem-aventurados todos aqueles que, por causa de Cristo, forem injuriados, perseguidos e caluniados. Ser santo, portanto, é vivenciar, mesmo em meio às dificuldades e aos sofrimentos da vida, a vontade do Senhor: Ele, que é bondoso, nos chama à bondade; Ele, que é misericordioso, nos chama à misericórdia; Ele, que é amoroso, nos chama ao amor! “É assim a geração dos que procuram o Senhor e do Deus de Israel buscam a face!” (Sl 23[24],6).

Com a Igreja, nesta tão bela solenidade, queremos rezar o que nos é apresentado como a oração deste dia: “Deus eterno e todo-poderoso, que nos permitis celebrar os méritos de todos os vossos santos numa única festa, concedei-nos, por intercessores tão numerosos, a desejada abundância da vossa misericórdia.” (MR, p. 482). Mesmo em meio à grande tribulação deste mundo (Ap 7,14), possamos nos alegrar e exultar, porque será grande a nossa recompensa nos céus (Mt 5,12).

Vale recordar o que nos diz o saudoso Papa Francisco, em sua exortação apostólica Gaudete et exsultate, sobre o chamado à santidade no mundo atual: “Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais.”

Assim, Francisco nos relembra aquilo que a Igreja sempre ensinou: a santidade é para todos, sem exceção.

Sejamos santos, pois é vontade de Deus e vocação de todos nós (cf. Lv 19,2).
Sejamos santos, pois somos cidadãos do céu (cf. Fl 3,20).
Sejamos santos, pois o céu é nossa meta!
Concedei-nos, Senhor, o convívio dos eleitos!

Sem. Leonardo Donizeti Coelho

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