Dom Dadeus Grings: gratidão por uma vida dedicada ao Evangelho

Colaboração: Dom Paulo Celso Dermatini, O. Cist.

Neste dia 21 de setembro de 2026, Festa de São Mateus, Apóstolo e Evangelista, recebemos a notícia da partida para a eternidade de Dom Dadeus Grings, arcebispo emérito de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, aos 90 anos, 64 de sacerdócio e 35 de episcopado. Diante de sua Páscoa, meu primeiro sentimento é de gratidão. Gratidão a Deus pelo dom de sua vida, por sua vocação sacerdotal e episcopal e por todo o bem que realizou ao longo de tantos anos de serviço à Igreja. Para mim, essa memória possui também um significado muito pessoal, pois durante alguns anos tive a graça de conviver e trabalhar diretamente com Dom Dadeus na Diocese de São João da Boa Vista, no interior do Estado de São Paulo. Estive como coordenador de pastoral, na organização de assembleia e sínodo diocesano e muito próximo em sua missão em minha diocese natal.

Ao recordar sua trajetória, contemplamos uma vida marcada desde cedo pela vocação. Dom Dadeus nasceu em Nova Petrópolis, no Rio Grande do Sul, em 7 de setembro de 1936. Ingressou ainda jovem no Seminário Menor São José, em Gravataí, e, posteriormente, foi enviado a Roma, onde realizou sua formação em Filosofia, Teologia e Direito Canônico na Pontifícia Universidade Gregoriana. Na Cidade Eterna, foi ordenado sacerdote no dia 23 de dezembro de 1961 para a Arquidiocese de Porto Alegre.

De volta ao Brasil, colocou sua sólida formação a serviço da Igreja. Exerceu o ministério paroquial, dedicou-se ao ensino, foi reitor de seminário e juiz do Tribunal Eclesiástico Regional, entre outras responsabilidades. O estudo, a reflexão e a formação sempre ocuparam um lugar importante em sua vida. Era um pastor que gostava de aprofundar as questões da fé e da vida da Igreja e que procurava partilhar esse conhecimento por meio da pregação, do ensino e de seus escritos.

Em 23 de janeiro de 1991, São João Paulo II o nomeou terceiro bispo da Diocese de São João da Boa Vista. Foi ordenado bispo em 15 de março daquele ano, na Catedral Metropolitana de Porto Alegre, onde estive participando desse momento, e tomou posse na Diocese em 19 de abril onde também estava presente. Escolheu como lema episcopal as palavras de Jesus no Evangelho de São João: “A verdade vos libertará” (Jo 8,32). A busca e o anúncio dessa verdade acompanharam seu ministério episcopal.

Foi justamente a partir de 1991 que nossos caminhos passaram a se encontrar mais intensamente. Eu já vivia minha vocação cisterciense no Mosteiro de Nossa Senhora de São Bernardo, em São José do Rio Pardo, e exercia meu ministério sacerdotal naquela Igreja Particular e também de colaborador próximo na pastoral do bispo que se tornou emérito e hoje é servo de Deus, Dom  Tomás Vaquero. Na época era também prior do mosteiro e pároco da Paróquia São Roque. Com a chegada de Dom Dadeus, iniciou-se para nós um período de intensa colaboração pastoral que guardo com carinho e gratidão.

Na Diocese, tive a oportunidade de servir como coordenador diocesano de Pastoral e coordenador diocesano da Pastoral da Comunicação. Também participava do Conselho de Presbíteros e do Colégio de Consultores e colaborava na formação dos futuros sacerdotes como professor do Seminário Diocesano Coração de Maria. Somavam-se a esses serviços minhas responsabilidades como prior, posteriormente abade, e como pároco. Foram anos de muito trabalho, reuniões, visitas, assembleias, encontros e discernimento sobre os caminhos da evangelização.

Dom Dadeus compreendia a importância de uma Diocese que caminhasse em comunhão. Sua sólida formação não o afastava da realidade pastoral; ao contrário, procurava oferecer fundamentos para que a ação evangelizadora respondesse aos desafios concretos encontrados nas comunidades. Tinha particular preocupação com a formação do clero, dos seminaristas e dos leigos e incentivava a reflexão sobre a missão da Igreja diante das transformações da sociedade. Escrevia mais de um livro por ano sobre vários assuntos.

Um dos frutos mais importantes desse período foi, sem dúvida, o Primeiro Sínodo Diocesano de São João da Boa Vista. Guardo lembranças muito especiais dessa experiência, porque eu exercia a Coordenação Diocesana de Pastoral quando teve início o processo sinodal. Foi uma grande oportunidade para colocar em prática aquilo que a própria palavra “sínodo” significa: caminhar juntos.

As primeiras articulações aconteceram em 1995, durante uma Assembleia Presbiteral convocada por Dom Dadeus em São José do Rio Pardo. Começava ali um caminho que envolveria progressivamente sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos de toda a Diocese. O Sínodo teria como tema “Caminhar juntos e evangelizar” e como lema “Preparai os caminhos do Senhor” (Mt 3,3).

Era um projeto pastoral amplo. Não queríamos apenas promover encontros ou produzir documentos. Desejávamos escutar a Diocese, conhecer melhor sua realidade, perceber suas necessidades e, a partir dessa escuta, discernir os caminhos que o Espírito Santo apontava para a evangelização.

A preparação envolveu as comunidades e paróquias. Foram promovidos momentos de oração, estudos, encontros e assembleias. Em 15 de novembro de 1995, uma Assembleia Diocesana de Pastoral aprofundou aspectos da eclesiologia do Concílio Vaticano II e as orientações pastorais da Igreja no Brasil. Poucos dias depois, em 26 de novembro, Solenidade de Cristo Rei, aconteceu a abertura solene do Sínodo, com grande participação do povo de Deus.

Uma das iniciativas mais expressivas daquele processo foi a pesquisa realizada junto às famílias. Mais de 104 mil famílias foram alcançadas e cerca de seis mil leigos participaram daquele grande esforço de visitação e escuta. Era a Igreja indo ao encontro das pessoas, entrando nas casas, ouvindo suas alegrias, dificuldades e esperanças e procurando compreender mais profundamente a realidade na qual deveria anunciar o Evangelho.

Os resultados ajudaram a identificar questões que necessitavam de atenção especial. Família, juventude, realidade social, formação e participação dos leigos apareciam entre os grandes desafios. Ao longo do caminho sinodal, ganharam particular destaque os jovens, as famílias e os pobres. Ao mesmo tempo, as dimensões do anúncio, do diálogo, do serviço e do testemunho ajudavam a Diocese a organizar sua ação evangelizadora.

Tenho consciência de quanto aquela experiência foi importante também para minha própria caminhada. O Sínodo ensinava-nos concretamente que a pastoral não pode ser construída de maneira isolada. Paróquias, comunidades, movimentos e diferentes serviços eclesiais precisam estar em comunhão. Evangelizar exige participação, escuta e corresponsabilidade. Muitas dessas experiências me acompanhariam depois nas missões que a Igreja viria a me confiar.

Naqueles mesmos anos, Dom Dadeus dedicava especial atenção às vocações e à formação sacerdotal. Durante seu pastoreio em São João da Boa Vista, foi criado o curso propedêutico na Casa de Formação São Paulo, em Caconde. Era mais um sinal de sua preocupação com o futuro da Diocese e com a preparação daqueles que seriam chamados a servir o povo de Deus como sacerdotes.

Outra página importante daquele episcopado está relacionada ao Padre Donizetti Tavares de Lima, hoje Beato Donizetti. Foi durante o governo pastoral de Dom Dadeus que a causa começou a tomar sua forma eclesial. Em 1992, iniciou-se uma ampla pesquisa sobre a vida, as virtudes e a fama de santidade do sacerdote de Tambaú. Em dezembro de 1996, foi concedido o Nihil obstat da Santa Sé e, em 16 de março de 1997, foi aberto o processo diocesano de beatificação, com a constituição do respectivo Tribunal Eclesiástico. Dom Dadeus demonstrou também seu interesse pela vida daquele sacerdote ao publicar, em 1996, a obra “As maravilhas do Pe. Donizetti”. Muitos anos depois, em 2019, tive a alegria de concelebrar, em Tambaú, a Santa Missa na qual o Padre Donizetti foi proclamado Beato.

Enquanto vivíamos intensamente essa caminhada diocesana, também ocorreram mudanças importantes em minha própria vida religiosa. Em setembro de 1996, o Mosteiro de Nossa Senhora de São Bernardo foi elevado à condição de abadia. Em dezembro daquele ano, fui eleito seu primeiro abade e, no dia 15, recebi a bênção abacial.

Pouco tempo depois, outra surpresa me aguardava. Em 26 de fevereiro de 1997, São João Paulo II me nomeou bispo de São José do Rio Preto, também no interior do Estado de São Paulo. Recordo bem daquele período. Recebi a comunicação da Nunciatura Apostólica e demorei algum tempo para dar minha resposta. Em determinado momento, antes de uma celebração, Dom Dadeus encontrou-me e perguntou por que eu ainda não havia respondido à Nunciatura e que, Maria demorasse para responder ao Anjo Jesus não teria nascido. É uma recordação simples, mas muito significativa para mim, pois revela sua presença também naquele momento decisivo de minha vocação.

No dia 25 de abril de 1997, em São José do Rio Pardo, minha terra natal, recebi a ordenação episcopal. Dom José de Aquino Pereira, então bispo de São José do Rio Preto, foi o ordenante principal. Dom Dadeus Grings, bispo de São João da Boa Vista, e Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, bispo de Guarulhos, foram os coconsagrantes. Guardo com gratidão a imagem daquele momento: o bispo com quem eu havia trabalhado tão intensamente na vida pastoral de São João da Boa Vista estava ali impondo as mãos sobre mim e participando do início de uma nova etapa de minha missão na Igreja.

Minha nomeação episcopal encerrou a convivência cotidiana com Dom Dadeus, mas não rompeu os vínculos construídos naqueles anos. Em 1999, já como bispo de São José do Rio Preto, fui convidado por ele a retornar à Diocese de São João da Boa Vista para colaborar em uma das sessões do Sínodo. Tive então a oportunidade de recordar as motivações que estavam na origem daquele caminho e refletir sobre a pastoral orgânica, a comunhão e a missão. Foi uma alegria reencontrar uma caminhada que eu havia acompanhado desde seus primeiros passos e perceber que as sementes continuavam produzindo frutos.

Dom Dadeus permaneceu em São João da Boa Vista até o ano 2000, quando foi nomeado arcebispo coadjutor de Porto Alegre. Posteriormente, assumiu o governo daquela Arquidiocese, onde continuou seu ministério episcopal por muitos anos. Sua atuação ultrapassou os limites das dioceses que pastoreou. Participou de organismos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e ofereceu importante contribuição especialmente no campo doutrinal, teológico e formativo.

Sua fecundidade pode ser percebida também nos ministérios que ajudou a gerar e acompanhar. Ao longo de seu episcopado, Dom Dadeus foi ordenante principal de seis bispos e participou como coconsagrante da ordenação episcopal de outros onze. Tenho a graça de fazer parte deste segundo grupo. Também impôs as mãos sobre dezenas de novos sacerdotes, que continuaram a missão evangelizadora em diferentes comunidades.

Dom Dadeus foi igualmente um escritor fecundo. Produziu numerosas obras e cartilhas sobre diferentes aspectos da vida cristã e eclesial. Filosofia, Teologia, Sagrada Escritura, liturgia, espiritualidade, moral, Direito Canônico, família, sociedade e questões pastorais estiveram entre os muitos temas aos quais dedicou sua reflexão. Seus escritos revelam uma característica presente em toda a sua trajetória: o desejo de compreender, aprofundar e transmitir a fé.

Porém, quando recordo Dom Dadeus, os números e as funções, embora importantes, não são aquilo que primeiramente me vem ao coração. Recordo os anos em que caminhamos juntos. Recordo a Diocese reunida para refletir sobre sua missão, as assembleias, os conselhos, as reuniões pastorais, o trabalho com os sacerdotes e os leigos, a preocupação com a formação, a preparação do Sínodo e o esforço para que nossas comunidades estivessem cada vez mais unidas na mesma missão evangelizadora.

Também por isso reconheço que aqueles anos foram importantes para minha preparação para o episcopado. Não existe propriamente uma escola para alguém se tornar bispo. Vamos aprendendo a servir com a Igreja, com o povo de Deus e com aqueles que o Senhor coloca em nosso caminho. Minha experiência como religioso, pároco, prior e abade, assim como os serviços na coordenação pastoral, na comunicação, nos conselhos e na formação sacerdotal, ajudaram-me muito. E a convivência com os bispos que pastorearam minha Diocese de origem também faz parte dessa história. Entre eles, Dom Dadeus ocupa um lugar especial.

Hoje, ao saber de sua partida para a eternidade, volto meu olhar para aqueles anos com ainda maior gratidão. A Igreja no Brasil recebeu muito de sua inteligência, de sua capacidade de trabalho, de seu ministério e de sua dedicação à evangelização. São João da Boa Vista e Porto Alegre guardam de maneira particular as marcas de seu pastoreio, mas os frutos de sua missão alcançaram muitos outros lugares.

É significativo que sua Páscoa tenha ocorrido justamente no dia em que a Igreja celebra São Mateus, Apóstolo e Evangelista. O Evangelho proclamado nesta festa recorda o chamado de Jesus: “Segue-me” (Mt 9,9). Mateus levantou-se e o seguiu. Também a vida de Dom Dadeus pode ser contemplada à luz desse chamado acolhido e renovado ao longo de sua caminhada: no sacerdócio, no episcopado, no estudo, na formação, na pregação e no serviço ao povo de Deus.

Dou graças ao Senhor por ter colocado Dom Dadeus em minha caminhada. Agradeço pela convivência, pelos trabalhos que pudemos realizar juntos, pela experiência sinodal que compartilhamos, por sua presença no momento de minha nomeação episcopal e pela imposição de suas mãos em minha ordenação como bispo.

Enquanto confiamos Dom Dadeus à misericórdia do Pai, permanecem a gratidão e a esperança cristã. Para aquele que fez das palavras “A verdade vos libertará” o lema de seu episcopado, pedimos agora a graça do encontro definitivo com o Senhor.

Que Deus acolha Dom Dadeus na sua paz e lhe conceda a recompensa reservada aos servos fiéis. E que o testemunho de sua vida continue ajudando-nos a caminhar juntos, em comunhão e missão, anunciando com alegria a verdade do Evangelho.

Dom Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro

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